domingo, 16 de maio de 2010

Humanidade, nada mais!

Ao ler um artigo que saiu na Folha de S. Paulo, do dia 13/05/2010, de Contardo Calligaris, com o título Adoção por casais homossexuais, fiquei interessado em escrever a respeito, contudo, e novamente, me prostei diante do tema, novamente as mesmas frases, os mesmos dissabores, as mesmas interrogações, as mesmas revoltas, diante de um tema como esse. Pensei, calar-me, não posso!
O artigo começa com "Na semana retrasada, por unanimidade, o Superior Tribunal de Justiça reconheceu que casais homossexuais tem o direito de adotar", e ao ler esta introdução partes do meu cérebro começaram a agir delineadamente e sorrateiramente pancadas das sinapses me conduziam à razão, pois um assunto que já é bordão, um assunto antigo e motivo de negações e aceitações, entretanto  atual e digno de condutas extremas/fundamentalista e extremas/conservadoras e extremas/progressista. Paradigmas criados, recriados e inovados. O mundo é recente em democracia, mesmo que ela seja somente representativa, porém quando o tema é negro, judeu, pobre, homossexual, deficientes, idosos, asiáticos, ciganos,crenças o Homem se torna bárbaro, volta ao seu estado primitivo e conduz ações desumanas e leviatânicas. A pergunta é,  por quê? Explicações e textos foram traçados, debatidos em mesas redondas. Intelectuais, visionários e "donos da verdade" discorreram amargamente a respeito. Quais os progressos alcançados? Perante as leis, tardiamente, alcançou uma aprovação, o direito dos homossexuais adotarem, mesmo com retaliações. Negros, em nosso país, ainda sofre sanções e preconceitos, pensamentos discordantes quando se fala em políticas afirmaticas; judeus destituídos de sua própria pátria, de sua morada, de seus valores, que hediondamente dizimados como animais pestilentos, como pragas enviadas por Deus; ciganos violados e violentados pela cultura dita superior, xenofobia de países soberbamente ditos donos do poder; deficientes humilhados e encarados como inválidos, excluídos de produzir e viver; os idosos inseridos em uma cultura ocidental de que a terceira idade é a idade do estorvo, da inatividade, da não produção aos cofres públicos, não é o dito perfil da globocolonização; os asiáticos, os amarelos são empecilhos aos ianques, aos imperialistas neoromanos, servem somente para trabalhar braçalmente e confinados em guetos; as crenças, ah, motivos de discordia, de guerras e mortes. Acreditar em um Deus único, acreditar em divindade que não seja a pregada pela igreja de Pedro, é estar fora da salvação. Por que não ser imanente ou descrente?; os homossexuais, a intenção deste texto é esse, todavia não tinha como não levantar algumas linhas ao pensar na minoria ou a maioria? Pois é, século 21 e eu aqui traçando algumas linhas a respeito de direitos.
Adotar ou não? Casar ou não? ser ou não ser homossexual? Ser ou não feliz? Ser ou não ser humano? Acreditar na vida ou não? Acreditar no Homem ou não? É tão simples a resposta. Basta tirarmos as máscaras e a pele que cobre o ser humano de preconceito ancestral, cultural/histórico, de vícios criados pelo próprio Homem.
É tão difícil o Homem tirar as máscaras carcomidas pelo tempo, cheias de traças e mofos, cobertas por baratas e ratos? Sim, mas é possível, é humano. Como seria mais fácil viver, como seria mais humana a raça, pois teria humanidade.
Ao prosseguir  com o artigo, Calligaris levanta a polêmica, se adotadas, as crianças, "Seu desenvolvimento afetivo, intelectual e sexual é diferente do das crianças de casais heterossexuais?" evidenciando respostas de décadas de estudos empíricos  feitos por médicos, psicólogos e assitentes sociais, que está em um documento de 72 páginas, de 2007, destinado à Corte Suprema da Califórnia pela American Psychological Association , a American Psychiatric Association e a National Association of Social Workers, dizendo: "homens gay e lésbicas formam relações estáveis e comm compromisso recíproco, que são essencialmente equivalentes a relações heterossexuais" e continua "não existe base científica para concluir que pais homossexuias sejam, em qualquer medida, menos preparados ou capazes do que pais heterossexuais ou que as crianças de pais homossexuais sejam, em qualquer medida, menos psicologicamente saudáveis ou menos bem adaptadas." É fato a existência de cientistas para evidenciar o que já é evidente.
Contardo ao afirmar que, no Brasil, alguns representantes do Poder - escolhidos pelo povo, pregam a união heterossexual, a moral alienante, a hipocria familiar, de instituições que eles mesmos destroem, corrompem, deturpam, ritualizam com seus tabus e escondem , sempre na surdina suja, as ortodoxias e prontificam a vomitar aquilo que não podem mostrar, pois externamente é sujo e pecado, contrário às "leis divinas". Podem ser desonestos, podem corromper, podem bulinar meninas e meninos no mundo virtual, podem desviar dinheiro, podem construir "torres de marfim", podem bater nas mulheres, podem ser distantes dos filhos, podem sentar à mesa com suas famílias,se sentam,  somente para cumprir os rituais ortodoxos, mas ao levantar, cada um com suas máscaras, podem trair suas esposas, podem ficam com garotos de programa, podem masturbar e pensar em outros ou outras, podem bulinar a filha ou o filho, mas ser favorável a adoção, jamais, eles têm que mostrar que são retos e com moral intocável. Quanta hipocrisia! Quanta desonra ao ser humano! - dizem que os filhos de casais homossexuais serão motivos de constrangimentos e zombarias/piadas, principalmente nas escolas. O dono do artigo coloca "Pois é, na mesma escola, também vão zombar de negros e de pobres. Vamos impedir negro e pobre de ter filhos? O Cômico é que, no Brasil, o filho de homossexual pode ser motivo de zombaria, mas essa zombaria não se compara com o que pode acontecer com filho de deputado..." Como havia dito linhas atrás, é isso, a moral sectária não enxerga o erro que está ao lado, à frente deles.
Por isso que afirmo, não é difícil viver, é difícil viver com seres humanos sem humanidade, seres que excluem, seres que endossam o preconceito, a discriminação e passam isso aos seus filhos. Onde está o mal? Ele nasce onde? Dentro das nossas casas. Entre quatro paredes das famílias ditas dignas e ilibadas. Rezam e oram diuturnamente para curar dos pecados. Famílias que estão com torcicolos  pelos pescoços levantados aos céus. O mal mora e moral está alojado nestas casas, que na entrada está escrito "Seja bem-vindo".
 No ato da escrita lembrei de um filme que assiste há dois meses, A fita Branca, do diretor alemão Michael Haneke, em preto e branco, muito interassante, porém cansativo, nos dá a ideia do nascimento do nazismo, do mal. Poderíamos até questionar, mas este mal poderia ter nascido na França, na Itália, em outros lugares, mas foi nascido ali, entre crianças ingênuas que estavam sendo "preparadas"  e "educadas" para a vida. O mal subexiste aqui e ali, basta querermos. Não sou pessimista com quanto à humanização, todavia é assustador o que defrontamos dia a dia, o espírito humano dentro de uma visão niilista diante de assuntos como os abordados.
Como esperar algo de bom dos seres humanos encobertos de mal, de ressentimentos, de decepções, de sofrimentos perdidos e encontrados, de espancamentos, de violações do corpo, de choros, de noites abertas para o fim? Como curar o mal destes seres? Como exorcizar este mal que consome mentes? Ainda não sei a resposta, mas sei que é muito bom ser feliz e conviver e compartilhar amor.
Assim nascem seres humanos com humanidade.

6 comentários:

  1. Se bárbaros são todos aqueles que são dferentes, externos ao normal: negros, estrangeiros, homossexuais, idosos, ciganos, deficientes fisicos, cristãos, não-cristãos, pobre... Quem são os normais? Temos que "discrimina-los". Separá-los, saber quem são. Se os anteriores são os diferentes, entao os iguais são iguais a quê?

    ResponderExcluir
  2. Concordo com a Mel, e acho que no fundo ninguém é 100% "normal".

    ser minoria não é fácil, especialmente sendo-se gay. Poucas leis nos defendem ainda. Há delegacias específicas para a mulher, mas onde se vê uma para homossexuais vítimas de agressão? Há leis que promovem a integração à sociedade de deficientes físicos, ou que estipulam quotas para negros ou índios nas universidades, mas onde é que a lei pune quem demite uma funcionário ou funcionária por ele ser gay, lésbica ou travesti? A Constituição diz que todos somos iguais perante a lei, mas como? Se não podemos ter os nossos direitos assegurados em uma legislação específica, nacional, que nos cite e nos garanta não só o direito a sermos respeitados, como o de casar, adoptar, etc. O Brasil ainda está muito aquém do que deveria estar, do nível que deveria ter, já que tanto se orgulha de sua cultura de miscigenação racial e tolerância. Mas, para nós, os homossexuais, onde está a tolerância?

    ResponderExcluir
  3. AS HORAS


    Tem horas que uma hora bate na porta
    Na porta do coração querendo então falar
    Alguma palavra para despertar o coração
    Trazendo uma luz por um novo caminhar

    A pressa da gente com outras ainda mais
    De nós vai arrancando lindas essências
    E essa hora insiste batendo nessa porta
    para o coração não perder sua real rota

    Tem horas que essa hora é tão delicada
    De tão delicada que tem finura invisível
    Mas como toda pressa aniquila o coração

    Essa santa hora com sua santa palavra
    Bate, bate mas, como o coração na abre
    Vamos, então, nos perdendo por dentro.

    Guina

    ResponderExcluir
  4. Agradecido pelo seu comentario sobre o poema que postei em meu blog, titulado O Beijo. Como estou ainda viajando, fico, no momento, impossibilitado de emitir uma opiniao sobre esse seu texto que faz referencia a um artigo publicado no Jornal A Folha de Sao Paulo. Assim que eu retornar, dentro de uma semana, no maximo, vou poder escrever algo, enfocando a tematica de maneira multifacetaria, ou seja, dentro de um prisma historico, sociologico, cultura, moral, religioso, juridico e psicanalitico. Por enquanto fica meu abraco e o agradecimento por ter acessado meu blog e emitir uma opiniao sensivel a respeito do meu poema.

    ResponderExcluir
  5. maurício, ainda bem que não se calou. a luta é grande, intensa e me parece interminável nessa democracia hipócrita em que vivemos. nao sei por que nos chamam de minorias. talvez, por que lutamos em separado. cada um com seu problema perante a ignorância de um todo. de todos. cansei de falsos moralistas, falsos filósofos, falsos sociólogos ou socialistas. quero a vida. só. beijo no teu coração.

    ResponderExcluir
  6. Não esqueci de comentar aquele artigo que saiu na Folha de São Paulo. Estou empenhado, no momento, num documentário. Dentro de duas ou três semanas,no máximo, lhe encaminharei. Abraços.

    ResponderExcluir